A Arte da Mentira

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 A Arte da Mentira

 “Uma mentira repetida mil vezes tornase verdade

Joseph Goebbels.

A natureza é mestra no engano. Está repleta de exemplos de dissimulação como mecanismo para a sobrevivência, manutenção, perpetuação das espécies e mostra-se de diversas formas. Apresenta-se como um comportamento instintivo.

As plantas carnívoras seduzem a sua presa e a dorme-dorme ou sensitiva finge-se de morta para ludibriar o predador. Sem contar com a sedução das flores que estão no topo do engano.

A arte do engano ganha destaque também no reino animal, presente entre alguns insetos no cortejo do macho à fémea.

O disfarce é outro mecanismo utilizado como proteção aos predadores. O curioso quero-quero – ave símbolo do Paraguai – defensora do seu território, finge atacar os predadores dos seus ninhos com voos rasantes quando a camuflagem das suas penas e outras táticas que empregam não funcionam.

Os primatas são exímios no disfarce no momento do acasalamento. Os jovens machos disfarçam a sua virilidade e exibem-na às fêmeas quando o macho líder se afasta, evitando o confronto.

Enquanto na natureza utiliza-se este mecanismo como estratégia instintiva de continuidade das espécies. O homem faz uso da racionalidade e intenção para manipular ações e sentimentos e obter benefício próprio, salvaguardando os processos inconscientes e instintivos.

No Paraíso, Adão esconde-se com Eva entre as árvores. Quando descoberto por Deus, confessa a traição, mas tenta afastar a culpa e acusa Eva de ter oferecido o fruto.

Na versão bíblica, assim se inicia o jogo da vida: através da mentira, engano e culpa.

O homem traz o engano ao mundo, e encontra o engano em todo o lado e dentro de si.

Conscientemente não temos intenção de nos enganarmos, acreditamos apenas em algo que vai de encontro aos nossos desejos, que é coerente com aquilo que pretendemos atingir em dado momento. Podemos dizer que a mentira que contamos a nós mesmos em boa verdade não mente, mas seduz. As mentiras que nos contamos trazem benefícios, e aí reside o poder do engodo, como a história do relógio que colocamos adiantado para não nos atrasarmos. Consegue, ainda assim, chegar a horas?

Esta tendência natural para acreditarmos naquilo que é favorável e congruente com as nossas crenças, desejos ou ambições relacionam-se diretamente com a seletividade da nossa atenção e memória. É como se escolhêssemos aquilo que vemos para confirmar aquilo que acreditamos, e rejeitássemos aquilo que não é consistente com a nossa crença. Há um padrão básico de assimilação e retenção da informação que produz uma espécie de cegueira seletiva e protetora, que é a chave do auto engano. Esta função protetora do auto engano permite que se perpetue no tempo, gerando muitas vezes um ciclo de auto mentiras que, por sua vez, leva à criação de uma ilusão na qual passamos a viver.

Seguimos como uma cópia falsificada de nós próprios.

O auto engano é como um sonho, por isso se foge muitas vezes para debaixo dos lençóis quando a realidade é dura, como uma forma de fugir desta. Debaixo dos lençóis vive-se uma pseudorrealidade onde tudo é possível, como uma espécie de ganho secundário. Num rasgo de alento vem uma culpa imensa e a ansiedade exercida pela pressão do tempo.

Abre-se mão dos ganhos primários e cria-se um vazio, fica-se sem história, sem passado e sem futuro, confinando-se a um presente sem sentido na pele de um desconhecido.

A chave é o auto conhecimento.

O auto conhecimento implica conhecer a verdade, isto é, ir em busca da verdade de si mesmo. Alimentamos mentiras e ilusões, a fim de fugir à verdade e à dor que essa provoca. A verdade pode doer, mas só doí uma vez. Assim, podemos precisar do auto conhecimento, mas não o procuramos por si só, porque conhecer a verdade sobre nós mesmos, implica quebrar uma ilusão. Isto é doloroso, porque criamos mentiras e passamos a viver acreditando nelas.

Este auto engano é notado, muitas vezes pelo outro e outras vezes por nós próprios. Quando há um reconhecimento do auto engano quer sozinhos, quer porque alguém o apontou e fomos capazes de o reconhecer, procuramos ajuda. A verdade é que algumas verdades doem. Mas o sofrimento da mentira é maior. O mais difícil é compreender a nossa (auto) ignorância e largar o auto engano. Assim sendo, quando a ilusão é quebrada, podemos chegar ao conhecimento de nós próprios.

Porém, o auto engano pode ser saudável, pode permitir uma convivência harmoniosa com o nosso EU, sem impor sofrimento aos outros e a nós próprios.

Em última análise, viver é fazer escolhas.

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Comments ( 3 )
  • Vera says:

    Não me parece fácil… Ainda bem que psicólogos existem Rsrsrsrsrsrsss…

    Que Deus abençoe sempre o teu trabalho!

  • Vera Lucia da Silva says:

    Como identificar os auto enganos? Como não fabricar auto enganos? Também: a produção do auto engano é um círculo vicioso do inconsciente ou é possível livrar-se dele para sempre?

    • Jatir Schmit says:

      Vera, o reconhecimento do autoengano pode surgir de várias formas. O primeiro passo é sair da negação e projeção. O feedback do outro, que pode ser positivo ou negativo, pode também ser um caminho para identificarmos o autoengano. Outro meio será através do autoconhecimento, quando nos questionamos acerca dos nossos comportamentos, atitudes e sentimentos. Quando nós mesmos reconhecemos o autoengano e há um feedback do outro no mesmo sentido, procuramos ajuda porque não conseguimos resolver alguns bloqueios que foram criados. Assim, ajudar-nos-á no percurso do autoconhecimento que permite evitar a teia prejudicial do autoengano.
      O autoengano é natural, podemos quebrar as ilusões disfuncionais mas também precisamos de ilusões para viver. Precisamos de sonhar e criar realidades para depois poder vivê-las, o que não devemos é prender-nos a isso e permanecer num imaginário disfuncional.
      Pelo autoconhecimento e auto reflexão diminuímos o autoengano. Quanto melhor nos conhecemos, quanto mais crescemos e evoluímos, menos nos auto enganamos. Mais uma vez, relaciona-se com as nossas próprias escolhas.
      Esperamos ter respondido às questões que colocou.

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