Condição: Mulher

Através dos tempos a Mulher ocupa um lugar complementar na vida. Detentora de características admiráveis e comparações poéticas – na cultura oriental a outra metade do céu, na  concepção  ocidental a mulher é criada com a  incumbência divina de alegrar o coração do homem e perpetuar o ato da criação.

Encarregada desta nobre missão, a grande geradora coopera, planta e colhe para nutrir os seus. Nesta aliança afetiva entrega-se à fragilidade de sua prenhez e aos cuidados da sua outra metade do céu.

Esta frágil força encanta-se com a proteção da sua outra metade, tornando-se cativa ao descobrir o compartilhar do sexo e da semente para perpetuar a vida. Seguem-se milénios de história entre abusos e submissões privadas.

Destes tempos remotos onde a agricultura e a caça imperavam surge novamente a necessidade, – na era industrial – imposta pela guerra, da participação pública  feminina  na substituição do homem no trabalho.

Novos tempos demarcam novas responsabilidades. A mulher assume dupla, tripla jornada, combinando o espaço privado e o espaço público, antes domínio masculino.

Na conquista deste novo espaço, além do papel primordial  e divino de mãe, soma as tarefas sobrepostas: dona de casa, cuidadora e amante, entre tantas outras responsabilidades não visíveis como: ser competente, sábia e bonita.

Dos extremismos nascem as lutas feministas que delimitam e quebram limites e imposições. Buscam romper as barreiras das diferenças.  É a luta pela igualdade de condições,  remuneração e direitos.

Masculino e feminino: oponentes que se complementam, combatem partes suas num misto de amor e ódio,  ao mesmo tempo que são traídos e atraídos pela mínima parte que os separa e que os une,  na construção da relação homem-mulher.

Esta unidade em relação,  polaridades combinadas e complementares  resulta na identidade do EU e do NÓS.

Ao sabor da vitória, entre suor e lágrima, num misto de satisfação e realização, ouvem-se lamentos de cansaço pelos ganhos outrora desejados. Gongelam-se dores e esquecem-se os próprios limites.

O EU Mulher já não sabe qual é o seu lugar, desorientada, perdeu seu norte. Sofre com a culpa de deixar seus rebentos à sorte dos cuidados de terceiros.  Lamenta ver o seu amor com o coração partido e  perceber que suas colheitas já não são tão fartas e aqueles que ama sofrem da miséria mais fatal de todas – fome de afecto e presença da mãe, companheira,  filha, amiga.

Das culpas surgem as dores da alma que a coloca no limite da sua resistência. Foge no abandono de si  mesma e seu ser grita silencioso  por socorro. Cabe ao nós uma urgente revisão da condição Mulher em busca do equilíbrio e do verdadeiro encontro ganha-ganha na (des)união das suas metades.

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