As férias terminaram e o corpo já dormiu, já parou, já teve o seu tempo de pausa. Ainda assim, algo continua a faltar.
A Rita tem 38 anos e é professora. Voltou das férias há duas semanas, fisicamente repousada, com a pele mais corada e o sono em dia. Mas ao sentar-se à secretária para preparar o novo ano letivo, sentiu algo que a inquietou: nada daquilo lhe dizia respeito. Preencheu horários, respondeu a emails, organizou materiais, tudo com competência, mas sem qualquer vontade a acompanhar os gestos.
“Descansei o corpo. Não sei porque continuo sem vontade nenhuma.”
Era outra coisa, mais difícil de nomear: uma espécie de distância entre ela e os seus próprios dias, ainda que o corpo já tivesse recuperado o seu ritmo.
O cansaço depois das férias, quando o corpo já recuperou, corresponde muitas vezes a um esvaziamento de sentido e de vitalidade que a pausa física, por si só, nem sempre alcança.
O descanso físico e o descanso existencial são experiências diferentes, ainda que costumem confundir-se. As férias podem restaurar o sono, a energia muscular e o ritmo do corpo, sem necessariamente tocar naquilo que se foi esvaziando ao longo do ano, o entusiasmo, a curiosidade, a sensação de que os dias têm uma direção que faz sentido. Quando a pausa não chega a esse lugar mais fundo, a rotina regressa e a pessoa sente o peso de retomar algo que já não reconhece como seu.
Este esvaziamento instala-se devagar, ao longo de meses em que se funciona sobretudo em piloto automático, a cumprir tarefas e responsabilidades sem espaço para perguntar o que realmente importa. É uma forma de adaptação, que revela sobretudo quanto tempo se esteve a funcionar sem esse espaço, e é também por isso que um período curto de descanso raramente basta para a desfazer.
O entusiasmo raramente desaparece de um dia para o outro. Aquilo que se aprendeu a silenciar também pode ser reaprendido a sentir, e é esse o movimento que este caminho torna possível.
Cada pessoa reconhece este esvaziamento à sua maneira, mas há sinais que se repetem com frequência:
• Falta de entusiasmo, mesmo depois de descansar bem.
• Dificuldade em encontrar motivação para retomar tarefas simples.
• Uma sensação de vazio ao pensar na rotina que se aproxima.
• Procrastinação em relação a coisas que antes fluíam com naturalidade.
• Indiferença perante atividades que costumavam despertar interesse.
Estes sinais falam de vitalidade, mais do que de sono ou de esforço físico. Quando encontram escuta, deixam de ser interpretados como falta de força de vontade e tornam-se orientação, um convite a voltar a interessar-se por aquilo que, ao longo do ano, foi ficando em segundo plano.
Este esvaziamento raramente vive só no plano do sentido. O corpo pode estar descansado e o sistema nervoso, ainda assim, permanecer em modo de cumprimento, pronto a responder e a corresponder, sem espaço para sentir. Foi isso que a Rita foi descobrindo: dormir bem tinha devolvido energia aos músculos, mas a ligação entre ela e os seus dias pedia outro tipo de descanso. É por isso que, na PSIC, este esvaziamento é lido em conjunto com o corpo, o sistema nervoso, as relações e o momento de vida de cada pessoa, uma leitura mais larga do que a motivação, que raramente conta toda a história.
Recuperar presença começa por perceber que o descanso, por si só, nem sempre chega. Muitas vezes, o que falta reencontrar é aquilo que dá aos dias uma razão viva de existir. Esse reconhecimento já é, em si, o primeiro movimento de regresso.
A partir daí, o caminho passa por sentir de novo a vida de dentro para fora, devagar, sem forçar entusiasmo onde ele ainda não existe. Trata-se de voltar a interessar-se por aquilo que dá sentido aos dias, para além de reorganizar a agenda ou cumprir mais uma lista de boas intenções para o novo ano.
Este processo pede tempo e presença, mais do que estratégias rápidas. Cada pessoa encontra o seu ritmo para voltar a sentir que os dias lhe pertencem, e é esse reencontro, mais do que qualquer pausa, que devolve verdadeiramente a ligação consigo mesma.
Quando esta falta de vontade persiste, atravessa as semanas e começa a pesar na forma como encara o trabalho, as relações ou o próprio futuro, vale a pena atravessá-la acompanhada, porque algumas perguntas tornam-se mais leves quando deixam de ser respondidas a sós.
Talvez também esteja a perguntar-se
Porque continuo sem energia mesmo depois de descansar bem?
Porque o cansaço nem sempre é físico. Quando o que se esgotou foi o sentido e a vitalidade, o corpo pode recuperar sem que o entusiasmo volte a acompanhá-lo.
Esta falta de vontade pode ter origem emocional?
Com frequência, sim. Meses a funcionar sobretudo em piloto automático podem levar a um apagamento gradual do entusiasmo, mesmo quando a vida, vista de fora, continua a funcionar bem.
Como posso começar a recuperar esta energia?
O primeiro passo é reconhecer a origem desta falta de vontade, o sentido que se esvaziou, mais do que a força de vontade em si. A partir daí, torna-se possível reconectar com aquilo que dá sentido aos dias, com um ritmo ajustado à sua história.
Quando faz sentido procurar apoio?
Quando esta falta de energia persiste, atravessa as semanas e começa a interferir no trabalho, nas relações ou na disposição para o futuro, um acompanhamento especializado ajuda a compreender a sua origem e a construir um caminho de reorganização.
Um Primeiro Lugar Para Si
Se reconhece esta experiência, talvez este seja o momento de encontrar Um Primeiro Lugar Para Si.
Um espaço onde é possível voltar a reconhecer-se, e onde é possível começar a distinguir aquilo que verdadeiramente lhe dá sentido.
Cada percurso começa quando encontra um lugar onde pode ser escutada com respeito, compreendida na sua singularidade e acompanhada ao seu próprio ritmo. É nesse encontro entre compreensão, regulação e presença que um novo caminho pode começar.
Nota. Personagem composta, derivada de casos reais. Nome e circunstâncias alterados para preservar a confidencialidade.