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Deixar de fumar por si ou pelos outros? A história do Sr. Álvaro e o desafio de parar de fumar

𝐃𝐞𝐢𝐱𝐚𝐫 𝐝𝐞 𝐟𝐮𝐦𝐚𝐫

Às vezes, uma pessoa diz que quer muito mudar. E acredita mesmo nisso. Mas o corpo, a mente e a história emocional contam uma outra versão.

 

O Sr. Álvaro (nome fictício) procurou a nossa clínica com um pedido direto: “Quero muito deixar de fumar.” Reformado recentemente, parecia ter finalmente tempo e espaço para cuidar de si. Disse que o contexto era agora diferente. A motivação parecia forte. Mas, como em tantos outros casos, as entrelinhas falavam mais alto.

 

Durante a avaliação, contou que já tinha deixado de fumar uma vez, anos antes, quando ainda exercia um cargo de topo. A decisão, no entanto, desencadeou um estado de agitação e agressividade tal que o seu próprio superior lhe sugeriu: “Vá fumar e volte amanhã.” Foi aí que o Sr. Álvaro percebeu que o cigarro, para si, era mais do que um hábito: era um amigo, uma válvula de escape. Um regulador emocional. Um apoio silencioso.

 

Apesar disso, voltava agora decidido. Mas a sua motivação real começou a revelar-se mais tarde, já durante o início do trabalho de regulação emocional. Disse com naturalidade: “A minha mulher não gosta do fumo, é ela que me incentiva.” Essa afirmação evidenciou que a motivação para cessar o tabaco era predominantemente extrínseca — mais orientada pelo desejo da companheira do que por uma convicção interna. A vontade, embora verbalizada, mostrou-se frágil perante o contexto emocional subjacente.

 

Durante o ritual de despedida do cigarro, orientado pela terapeuta, deveria deitar fora o maço e o isqueiro. No entanto, pensou em deixá-los à disposição de outra pessoa. Quando questionado, respondeu: “A doutora mandou deitar fora, não vou desobedecer.” Obedeceu, mas não escolheu.

 

A sessão de hipnoterapia correu muito bem. Saiu calmo, tranquilo, com sensação de leveza e clareza. Dois dias em paz. No terceiro, tudo se desmoronou: voltou a sentir-se irritado, impaciente, especialmente com a companheira. Num momento de tensão, embora tenha sido orientado a limpar todos os vestígios de cigarro em casa para encontrar um ambiente limpo, exigiu: “Eu sei que guardaste um maço. Vai buscá-lo que eu vou fumar.”

Sabia o que fazer. Tinha sido orientado: se surgisse vontade, bastava contactar a clínica. Mas não o fez. Simplesmente fumou.

 

Quinze dias depois, voltou. Desta vez, mais disponível para ir fundo. Quis compreender o que, afinal, o levava a agarrar-se ao cigarro com tanta força. Iniciámos então um novo caminho: trabalhar primeiro a regulação emocional. A sessão correu bem. Dois dias de estabilidade. Mas, novamente, quebrou todas as orientações, interrompeu o cigarro por impulso, sem apoio clínico, caiu num looping emocional e… voltou ao mesmo ponto.

Ligou no dia da segunda sessão: “Tomei uma decisão. Não vou parar de fumar. Vou fumar até quando quiser.”

 

O Sr. Álvaro foi informado dos riscos desde o início. A decisão de parar de fumar ainda não era dele — era uma tentativa de corresponder à vontade do outro. Insistia: “Faço tudo o que for preciso para deixar de fumar.” Mas, na prática, transgredia cada orientação, rejeitava o apoio emocional proposto e recusava-se a entrar em contacto sempre que surgia a vontade de fumar.

 

Este caso traz uma lição importante — para terapeutas, para familiares e para quem está a considerar mudar um comportamento:

🔹 Nem sempre é o momento certo para parar.
🔹 Nem toda vontade é decisão.
🔹 Nem todo gesto de mudança é um gesto de autonomia.

 

Antes de parar de fumar (ou de mudar qualquer hábito enraizado), é essencial verificar se a decisão vem de dentro. Se há estrutura emocional para lidar com os efeitos da mudança. Se há apoio suficiente. E se há disposição para fazer o caminho inteiro — com consciência, consistência e autocompaixão.

 

Na nossa prática, a hipnoterapia é uma ferramenta poderosa — mas só funciona quando respeita o tempo e a verdade de cada pessoa.